Vou mas é aproveitar que estou "livre". Ha ha ha! Essa piada é boa João; és um palhaço, pá! (E um bom amigo; naquela altura, só contigo poderia falar e não me decepcionaste) Para onde estará o Bruno a olhar? Ah! A rapariga que entrou no café. Percebo: tudo no sítio. Mas a forma como se mexe... Algo errado: ela sabe que está a ser olhada pela mesa do cinco rapazes e mesmo assim provoca. Ela está à "caça". Odeio quando isso acontece: acaba sempre mal. Cuidado, Bruno. E o Miguel, verborreico como sempre. Precisa de trabalhar menos, o coitado. Não, no laboratório ele precisa de produzir mais. As saídas é que estão em falta. Já passo os dias inteiros com ele, mas não consinto em deixá-lo só. Ha! Acesa discussão sobre futebol: adoro isto! Arreliar o Bruno com as suas tendências portistas. 'Tou com sede. Mais um, malta? A mulher até é interessante, gira - às vezes sou demasiado crítico. O Miguel está bem, no meio da malta. E ela está em casa a dormir, tudo está bem. Dormir... Estou com sono. O Chico diz que são duas da manhã e já estou a cair para o lado. Já não aguento as noitadas como antes. E ainda tenho que passar lá. Despeço-me. O Chico faz pouco de mim: diz que pareço um cãozinho. E estou pronto para lhe dar uma sova como se de uma besta se tratasse. Todos se riem e viro as costas com um "até amanhã". O ar frio estala na minha face, mas não me chega a arrepiar; simplesmente acorda. E se o Chico tem razão? Se no meio da minha renegada devoção encontro alguém, amanhã, que virará o meu mundo ao avesso? Que será dela? Quem serei eu então? Há uma profunda tristeza que me assola o coração etanolizado, que me sobe à garganta como uma agonia. Não. Não me vou deixar vomitar. Não estou embriagado. Porquê isto? Mas revejo o olhar o Chico. O sorriso malicioso esconde um brilho de admiração qualquer que nunca cheguei a entender. E entenderei a estas horas e com este frio?
Estou a chegar. Espero ainda ter comigo as chaves que me deu para alguma eventualidade urgente. Não me apetecia ficar cá fora ao frio à espera que chova antes de chegar ao intercomunicador para me abrir a porta. O elevador para o penúltimo andar faz mais barulho que o esperado, a estas horas matutinais. Não a queria acordar - juro que não quero! No escuro (para não alarmar as vizinhas), tento acertar com a chave na fechadura blindada do seu castelo. Com movimentos desajeitados, nervosos, mas silenciosos. A porta abre-se a custo e para o corredor transborda um doce cheiro fresco que nunca cheguei a perceber o que era nem de onde vinha. Ainda bem: não acordou. A sua silhueta está decalcada por baixo dos cobertores de lã; a memória daquele calor feminino atrai-me para mais perto. Os cabelos sobre a almofada, um rabo de cavalo tempestuoso que lança para mim uma torrente de doce frescura que me inunda e me revitaliza. Apetece-me tanto deitar-me só ao seu lado, sem a acordar. Não me posso deixar adormecer; tenho que ir para casa. O meu nariz frio toca levemente no lóbulo da sua orelha. Primeiro um arrepio (Oh não! Acordei-a. Não queria). Lentamente, o recorte da sua bochecha iluminada pela noite insufla-se num sorriso. Ponho o meu braço ao redor do vale coberto que adivinho ser a sua cintura e suspiro de cansado. Sei que daqui a algumas horas irá acordar a pensar que bom é ser Domingo e que bom é ter-me ao seu lado.
Lapin










